Exemplo de dentro para fora

7 mar

Arouca não pode gritar sozinho. (Foto: Leandro Martins/AE)

No início de 2013, o futebol sul-americano teve em mãos uma grande oportunidade de agir conforme manda o figurino no caso do boliviano Kevin Espada, morto por um rojão que supostamente partiu da torcida do Corinthians na partida contra o San José (BOL), em Oruro, pela Copa Libertadores. Mas o futebol sul-americano, “representado” por seu órgão máximo, a Conmebol, falhou.

Na sequência, o caso tomaria proporções de Estado, com prisões de brasileiros na Bolívia, intervenção do governo e etc. Porém, inicialmente, a morte de Kevin era um problema do futebol, não de segurança pública. Do futebol porque aconteceu dentro do estádio Jesús Bermúdez. E não fosse a medíocre organização que permitiu que alguém (corintiano ou seja lá quem for) entrasse com um rojão na cancha, a tragédia não teria acontecido. Tivesse a entidade que organiza o esporte no continente tomado uma atitude à altura do caso, o falecimento do garoto poderia sim servir de exemplo para questões de segurança pública. Um exemplo que partiria de dentro para fora. Do futebol para a sociedade.

Mas porque falo de Kevin agora, em março de 2014?  Porque Kevin tem a ver com Arouca. E com Tinga e Márcio Chagas. E com o exemplo que o futebol poderia dar de dentro para fora e não dá.

Só que o racismo, diferentemente da morte de Kevin, não é um problema do esporte em si. É social. Parte da intolerância “humana”, atravessa os portões e catracas dos estádios, encontra a brecha para invadir o futebol e mancha o espetáculo. Nas arquibancadas ele encontra seu ponto final e aí, portanto, passa a ser um aspecto do futebol também. Mas não se inicia no campo. O ponto em comum com as manifestações racistas sofridas por esses personagens citados acima é a impunidade e a falta por parte dos órgãos responsáveis de uma tomada firme de decisões a respeito. Medidas que possam coibir esse tipo de comportamento inaceitável.

Ao ficarem de braços cruzados, a Conmebol, a CBF e até a FIFA apenas corroboram com o racismo. Como a Conmebol corroborou com a violência e assinou (mais uma vez) o atestado da má organização na Libertadores do ano passado, com Kevin, Oruro e outros casos corriqueiros relacionados ao torneio mais importante das Américas.

Que fique claro: Conmebol, CBF e FIFA não têm o poder de mudar a sociedade a ponto de atingirmos o ideal no que diz respeito ao próprio respeito e à tolerância ao outro. Mas não se pode perder a oportunidade de entrar nessa batalha e, como não aconteceu em muitos outros casos e situações, participar e promover a reflexão para um mundo/esporte melhor.

Kevin, lá de cima, luta junto de Tinga, Arouca e Márcio Chagas aqui embaixo por um futebol e uma sociedade mais tolerantes. Só que não podem lutar sozinhos. Precisam de amparo, precisam se sentir protegidos. E os órgãos precisam marcar a diferença. Dar o exemplo de dentro para fora.

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